Lendo, Ouvindo, Vendo

A economia não mente – Guy Sorman

Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental Andrei Plesu.

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Cosmos – FOX e A história da Matemática BBC.

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MCIII – Mikal Cronin Os Pingos nos IsReinaldo Azevedo e trupe (rs).

Metendo o nariz onde fui chamado

Antes do texto em si, uma explicação:

Durante todo o ano de 2013, eu fiz alguns frilas como redator para uma agência do Rio, e grande parte dos textos que eu produzi foi destinado a um cliente que comercializa vinhos de padrão elevado. Na maioria das vezes, o que me foi pedido era bastante simples, nada que exigisse conhecimento prévio e específico do assunto – quem me conhece sabe que eu não entendo necas de vinho. Alguns dos textos eu gostei bastante de escrever, pois tinham um tom mais histórico, as pesquisas para a feitura destes poucos me foram prazerosas, até.

O fato é que, desde janeiro, até agora há pouco, quando escrevi o último texto do ano para o cliente, eu me vi cercado de termos como “taninos macios”, “cor rubi intensa”, “aroma com notas de especiarias”, “sabor frutado”, “bebida dos deuses”, “terroir”, etc etc etc. De taças à entrevistas com produtores e enólogos internacionais, eu realmente entrei de cabeça neste (pra mim) novo universo. Pelo feedback da agência, eu mandei bem (sei que não tive que reescrever muita coisa, ainda bem).

Isto explicado, vamos ao que interessa:

No último mês, um amigo, depois de uma conversa anterior e fortuita a respeito do tema, me emprestou (ou deu, ainda não decidi, rs) um dos livros do Matt Kramer – um dos três grandes críticos de vinhos nos Estado Unidos -, e, sem saber, despertou uma curiosidade boa no marmanjo aqui.

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A versão brasileira da segunda edição de Os Sentidos do Vinho, lançada pela Conrad em 2007, é um belo de um ensaio sobre absolutamente tudo o que envolve o vinho. Adegas, criação, etapas de produção, comercialização, harmonização, conceitos como connoiseur, a relação da qualidade do vinho com diversas variáveis, como umidade, temperatura, transporte, tudo o que você possa imaginar sobre o assunto, o Kramer tratou direta ou indiretamente nesse livro, e sabe o que é melhor: sem nenhum pedantismo.

O cara consegue unir fatos históricos e científicos com conhecimentos de iniciados, sempre com irnonia, inteligência e linguagem clara, sem rodeios, a respeito do significado da bebida, desde sua criação. As tiradas espirituosas (“Cheirar a rolha não nos ensina nada [sobre a qualidade de um vinho], assim como tampouco podemos depreender algo sobre a qualidade de um sapato cheirando uma meia”) como representação de uma vontade, às vezes bem explícita, de desmitificação desse mundo que, para quem vê de fora, é bastante esnobe e antipático, tornam o livro ainda mais interessante. E como bônus, ele é bem escrito demais.

O crítico americano, como ele explica logo no começo do livro, entrou nessa de vinhos por acaso, sem nenhuma pretensão. Ele escrevia numa coluna de gastronomia num jornal do seu estado, e, devido a um direcionamento comercial estratégico visando os empreendimentos vinícolas da região, assumiu, por proximidade de assunto (comida, bebida), o departamento que cuidaria da ‘divulgação’ das bebidas nas páginas do diário, ou seja, só passou a escrever sobre vinhos por causa das obrigações do trabalho. Mas, uma vez dentro, ele se dedicou, leu tudo, gastou muito para conhecer de fato os vinhos, aprendeu a diferenciá-los pela qualidade, e, pam!, tornou-se um dos maiores na sua área, justamente quando houve um bum da produção e consumo de vinhos de alto padrão em países antes com pouca tradição na vitivinicultura, fins dos 80’s e 90’s todo.

Além de ter gostado muito do livro do Kramer, o que eu mais gostei foi saber sobre sua trajetória pessoal, que despertou em mim curiosidade e vontade sincera de conhecer muito mais desse mundo que pude entrar em contato esse ano. Eu, que nunca fui fã de vinho, me propus um desafio, assim como se propôs o Matt lá na década de 70: deixar o preconceito de lado e ultrapassar as barreiras da superficialidade a respeito do tema.

Mas ó, prometo que não vou me tornar o babacão chato que só tem um assunto na vida.

Resenha: Mick Jagger por Phillip Norman

(Resenha originalmente publicada no Rock’n’Beats no dia 21.12.2012)

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(Tradução de Álvaro Hattnher e Claudio Carina, Companhia das Letras, 624 páginas, 49,50 reais)

Em 2012, a maior banda de rock que já existiu completou cinquenta anos. Foi em 1962 que tudo começou, quando alguns garotos ingleses de classe média amantes do blues americano reuniram-se sob o nome de Rolling Stones, pretendendo não muito além de homenagear seus ídolos, soar como eles, e, dessa forma, ser a melhor banda de Rhythm & Blues do Reino Unido.

O que aconteceu desde então já faz parte da larga e importante história da cultura pop no século XX. Os responsáveis pelo desenrolar dessa história são ícones da música no mundo todo; o principal deles, o hoje Sir Michael Philip Jagger, é o representante maior da figura do rock star com os quais nos acostumamos desde quando Elvis Presley apareceu com sua música enérgica e seu requebrado desafiador.

E é do Michael – de bom desempenho escolar (chegando a estudar na prestigiada London School of Economics) e praticante de esportes (fundou um clube de basquete na escola e um grande fã de críquete) – que se transformou no Mick – o admirador de blues que definiu o que é ser frontman de uma banda de rock’n’roll – que o jornalista Phillip Norman se ocupou nas 624 páginas de sua mais nova investida literária, a biografia não autorizada Mick Jagger, lançada há pouco tempo no Brasil pela Companhia das Letras.

Da avalanche de sexo e drogas que marcaram a carreira dos Rolling Stones nos anos 60 e 70, ao sagaz homem de negócios que o gerenciamento de uma marca gigantesca que sua banda se tornou exige, sem deixar de lado o homem de família, pai de sete rebentos, Mick Jagger pelas 250.000 palavras (aproximadamente) de Phillip Norman foi mostrado como um personagem grandioso em diversos aspectos de sua vida.

Em um dos mais controvertidos desses aspectos, a do inveterado amante (e amado) das mulheres, Jagger é descrito por Norman como por vezes contraditório, por vezes vulgar, por vezes doce – as principais relações amorosas de Mick, Marianne Faithfull, Bianca Jagger e Jerry Hall, foram marcadas por momentos de extrema canalhice e outros de apaixonante gentileza.

De outro modo, a despeito da vida desregrada e caótica de sua banda, com o abuso excessivo de drogas, que inclusive levou à morte o seu primeiro guitarrista solo, Brian Jones, pouco tempo depois de ser dolorosamente demitido por Jagger e seus companheiros, Mick sempre se mostrou o homem certo para gerenciar a carreira da ‘monstruosidade’ financeira e artística que foi, é e continuará sendo os Rolling Stones.

Apesar dos inúmeros envolvimentos com autoridades policiais em diversas partes do mundo (desde porte de drogas com o episódio de 1967, detalhadamente contado por Norman no livro, ou no episódio da morte de um fã no conturbado show de Altamont em 1969), das perdas de integrantes, das disputas financeiras com gravadoras e empresários, das separações amorosas, litigiosas ou não, Mick Jagger sempre permaneceu focado no seu trabalho e no direcionamento da sua banda, seja no processo de composição e sucesso de um single/álbum (e foram tantos…), seja nas importantes decisões financeiras que a envolviam (o planejamento de turnês, lançamentos, etc.).

Phillip Norman é renomado na sua carreira como biógrafo, já contou a história de artistas como Beatles, Elthon John e Buddy Holly, além dos próprios Stones em diversas oportunidades (são quatro livros sobre o quinteto inglês até hoje lançados pelo jornalista). Por isso, o experiente escritor tem um vasto conhecimento a respeito das primeiras décadas do rock’n’roll, dos seus principais personagens e do que representa historicamente aquela época.

Em Mick Jagger (o livro), seu senso aguçado de repórter e sua insistente curiosidade revelam-se a cada detalhe cuidadosamente esmiuçado das principais histórias que envolvem Mick e sua lendária banda. Phillip Norman também se mostra um excelente escritor ao lançar mão de artífices literários para montar, quando não possível com fatos, a narrativa biográfica de Jagger. Neste aspecto, as passagens mais notáveis são quando o jornalista nos conta sobre a origem das principais músicas compostas pela dupla Jagger/Richards, e a relação de cada uma com a trajetória conturbada da banda e a vida pessoal de seu líder.

Por fim, é preciso dizer que todas as histórias e lendas em torno de Mick Jagger e dos Rolling Stones estão presentes no livro produzido por Phillip Norman, e, para qualquer fã que queira saber os pormenores da vida de ambos, cujas histórias tornaram-se una no já longínquo ano de 1962, este será colosso de mais de 600 páginas será um prato cheio. Mas o mérito maior do livro de Norman está em tratar o biografado como um personagem diverso, interessante e complexo, trazendo à tona histórias do seu passado mais remoto (como sua vida pré-Stones), esclarecimentos sobre decisões importantes que marcaram a trajetória da banda, até fuxicos sobre acontecimentos recentes da vida do líder do hoje quarteto inglês, ou seja, quase tudo o que Mick Jagger insistentemente nos priva com uma sempre oportuna falta de memória a respeito da sua trajetória artística e vida pessoal.

 

E.L. Doctorow, meu escritor favorito

Foi na universidade que conheci o meu escritor preferido, e eu guardo essa lembrança como guardo as melhores lembranças da minha vida.

Cursei História¹ por falta de opção, não é muito bonito dizer isso mas foi assim que aconteceu. Sempre me interessei pelas ciências humanas, mesmo que de forma não muito próxima, e não tinha desejo algum de me envolver com cursos técnicos (não que eu não seja bom com números), nem com aquelas profissões tradicionais (burramente, eu tinha esse pensamento que se deve trabalhar apenas com aquilo que se gosta, burramente pois trabalho é fazer dinheiro, muito, de preferência), nem muito menos com as da moda (essas profissões da tal geração Y). Daí que passei no meu primeiro vestibular e cursei História na federal do Maranhão – novamente, sem motivo especial, escolhi História por ser de humanas, e só, passou até pela cabeça fazer letras, mas não fiz, pelo menos não nessa primeira tentativa de entrar na universidade, fiz um ano mais tarde na estadual daqui, mas larguei tão logo percebi o curso como realmente era e não como eu pensava ou queria que fosse – era apenas um curso pra formar professores de línguas e literatura naquele formato magistério, sabe, aquele lance de escola, de teor limitado, funcional e etc. Enfim, fiz História. Fiz bacharelado pelo trabalho de pesquisa. Não faz muito tempo terminei uma especialização, História Cultural.

Eu cursei História no exato momento em que acontecia no Brasil uma mudança de paradigma (uh!) na estruturação teórica do conhecimento: o Marxismo acadêmico cedia lugar ao Pós-Modernismo em tudo quanto é área. Lá no curso o negócio foi pesado, uma avalanche de conceitos, embates, autores, livros, etc. Daí que folheando um desses tantos livros sobre Pós-Modernismo encontrei esse da canadense Linda Hutcheon, “Poética do Pós-Modernismo”, que faz uma retrospectiva do conceito (pós-modernismo) aplicado principalmente à literatura da última metade do séc. XX, discussões, livros, autores… e aqui que eu o encontro.

E.L. Doctorow é americano de ascendência russa, e um dos literatos vivos mais premiados lá nos EUA. Membro das principais academias americanas de arte, ciências, filosofia e letras. Autor mundialmente conhecido pelo romance “Ragtime”, eleito um dos 100 melhores romance do século XX pela Modern Library. Meu primeiro contato com ele foi com “O Livro de Daniel”, provavelmente o livro que mais reli na vida, por motivos diversos, explico mais adiante. Os dois romances citados são respectivamente o quarto e o terceiro por ele publicados, ambos foram transformados em filmes – aliás, esse é outro aspecto da trajetória literária de Doctorow que merece destaque: muitos dos seus romances foram adaptados para o cinema (ao entrar em contato com as obras dele fica fácil entender o porquê), ainda não assisti a nenhum, por preguiça ou por pouca curiosidade mesmo, admito. Desde sua estreia com “Tempos Difíceis” em 1960, Doctorow coleciona alguns best-sellers, sendo traduzido em mais de 30 línguas. É ou não é um histórico de respeito?

O motivo que me faz eleger E.L. Doctorow como meu escritor favorito é simples, pois tem a ver com o fato de eu ter estudado História. A maneira como ele se apropria de fatos e personagens históricos americanos, anônimos ou conhecidos, oficialmente relevantes ou cotidianos, é de uma inteligência tamanha que ultrapassa mesmo os limites da literatura e diz respeito ao modo como encaramos e estruturamos o mundo em que vivemos, seja no nível pessoal seja no nível social. Doctorow é mestre no processo de (re) construção da memória da sociedade americana, de como eles encaram e conhecem sua própria história, e não somente a história de grandes e celebrados eventos e personagens, mas também a história julgada menor, dos acontecimentos diários, dos que muitas vezes são apresentados apenas como massa sem rosto e sem importância. E um mestre no modo de tratar a memória, e sua constante transformação, como fator primordial na construção pessoal de seus personagens literários.

Em sua obra há a percepção clara de que não há barreira alguma entre o mundo ficcional e o mundo palpável – e não é que essa barreira seja tênue ou seja difícil definir o limite que separa ambos os mundos: na literatura de Doctorow esse limite simplesmente não existe, o escrito e o vivido são tomados como uma coisa só. E é aí que sua escrita se agiganta, personagens  que existiram realmente como o ilusionista Houdini, o General William Tecumseh Sherman, o casal Rosenberg e acontecimentos como A Feira Mundial de Nova Iorque, a Guerra Civil e a perseguição aos comunistas nos EUA misturam-se, sem hierarquia de importância, a outros personagens e fatos criados pelo autor. Na obra de Doctorow, não há distinção entre o que é criado e o que aconteceu realmente, entre o que é ficção e o que é verdade, pois tudo o é ao mesmo tempo. Nos seus livros, a memória de um adulto comum a respeito de sua infância é tão falha e cheia de buracos quanto à memória coletiva de uma sociedade a respeito de sua própria história, e, ambas, passíveis de intervenções e distorções, isto é, não há como definir o que é real e o que é  inventado, pois, na ficção assim como no mundo palpável, a realidade é inventada, constantemente.

Ou seja, como bom escritor que é, E.L. Doctorow consegue pensar através de suas histórias incrivelmente bem escritas e montadas, às vezes da maneira quebrada, não convencional, que caracteriza o Romance a partir da segunda metade do século XX, ou melhor, depois de Joyce, a forma como organizamos nossas vidas, e, numa visão geral, a forma como as próprias sociedades se fundam e se estruturam. Em todos os livros que li do americano, sempre me pus refletindo sobre as questões que, como muita dificuldade e esforço, me foram apresentadas no meu curso de História inteiro: qual o papel da memória no desenrolar de nossa existência social? Que tipo de escolhas e decisões nos define? Como sabê-las?

É preciso dizer que Doctorow tem um aguçado senso de historicidade e seus livros são peças raras de caracterização da vida nos EUA desde sua fundação. Os principais momentos que ajudaram a construir a imagem da América do Norte como a conhecemos são tratados em suas obras, desde o Velho Oeste até a Guerra do Vietnã.

Eu tenho especial ligação com o seu “O Livro de Daniel”, pois foi com ele que tive minha primeira experiência mais incisiva na Academia, sendo tema de um trabalho sobre o Romance Contemporâneo que apresentei em um desses congressos da vida, e que me dá muito orgulho, preciso dizer (e olha que não sou de sentir orgulho por muita coisa). Um livro bonito sobre uma história triste, e, acima de tudo, um livro que pensa com propriedade a experiência malsucedida e disforme do comunismo nos Estados Unidos no começo dos 1900.

No fim, eu o elejo como meu escritor favorito justamente porque, em última instância  a matéria prima da sua literatura é também a matéria prima do meu ofício: o passado, e sua explicação/apropriação pela História.

O Doctorow tem algumas boas entrevistas espalhadas por aí, e alguns bons textos a respeito de literatura e da vida. O site dele tem um material bem vasto para consulta. Querendo conhecer um escritor novo? Tá dada a dica.

1 – De acordo com os conceitos comumente utilizados por estudiosos, diferencio História (significando a disciplina) de história (significando conjunto de acontecimentos)