Metendo o nariz onde fui chamado

Antes do texto em si, uma explicação:

Durante todo o ano de 2013, eu fiz alguns frilas como redator para uma agência do Rio, e grande parte dos textos que eu produzi foi destinado a um cliente que comercializa vinhos de padrão elevado. Na maioria das vezes, o que me foi pedido era bastante simples, nada que exigisse conhecimento prévio e específico do assunto – quem me conhece sabe que eu não entendo necas de vinho. Alguns dos textos eu gostei bastante de escrever, pois tinham um tom mais histórico, as pesquisas para a feitura destes poucos me foram prazerosas, até.

O fato é que, desde janeiro, até agora há pouco, quando escrevi o último texto do ano para o cliente, eu me vi cercado de termos como “taninos macios”, “cor rubi intensa”, “aroma com notas de especiarias”, “sabor frutado”, “bebida dos deuses”, “terroir”, etc etc etc. De taças à entrevistas com produtores e enólogos internacionais, eu realmente entrei de cabeça neste (pra mim) novo universo. Pelo feedback da agência, eu mandei bem (sei que não tive que reescrever muita coisa, ainda bem).

Isto explicado, vamos ao que interessa:

No último mês, um amigo, depois de uma conversa anterior e fortuita a respeito do tema, me emprestou (ou deu, ainda não decidi, rs) um dos livros do Matt Kramer – um dos três grandes críticos de vinhos nos Estado Unidos -, e, sem saber, despertou uma curiosidade boa no marmanjo aqui.

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A versão brasileira da segunda edição de Os Sentidos do Vinho, lançada pela Conrad em 2007, é um belo de um ensaio sobre absolutamente tudo o que envolve o vinho. Adegas, criação, etapas de produção, comercialização, harmonização, conceitos como connoiseur, a relação da qualidade do vinho com diversas variáveis, como umidade, temperatura, transporte, tudo o que você possa imaginar sobre o assunto, o Kramer tratou direta ou indiretamente nesse livro, e sabe o que é melhor: sem nenhum pedantismo.

O cara consegue unir fatos históricos e científicos com conhecimentos de iniciados, sempre com irnonia, inteligência e linguagem clara, sem rodeios, a respeito do significado da bebida, desde sua criação. As tiradas espirituosas (“Cheirar a rolha não nos ensina nada [sobre a qualidade de um vinho], assim como tampouco podemos depreender algo sobre a qualidade de um sapato cheirando uma meia”) como representação de uma vontade, às vezes bem explícita, de desmitificação desse mundo que, para quem vê de fora, é bastante esnobe e antipático, tornam o livro ainda mais interessante. E como bônus, ele é bem escrito demais.

O crítico americano, como ele explica logo no começo do livro, entrou nessa de vinhos por acaso, sem nenhuma pretensão. Ele escrevia numa coluna de gastronomia num jornal do seu estado, e, devido a um direcionamento comercial estratégico visando os empreendimentos vinícolas da região, assumiu, por proximidade de assunto (comida, bebida), o departamento que cuidaria da ‘divulgação’ das bebidas nas páginas do diário, ou seja, só passou a escrever sobre vinhos por causa das obrigações do trabalho. Mas, uma vez dentro, ele se dedicou, leu tudo, gastou muito para conhecer de fato os vinhos, aprendeu a diferenciá-los pela qualidade, e, pam!, tornou-se um dos maiores na sua área, justamente quando houve um bum da produção e consumo de vinhos de alto padrão em países antes com pouca tradição na vitivinicultura, fins dos 80’s e 90’s todo.

Além de ter gostado muito do livro do Kramer, o que eu mais gostei foi saber sobre sua trajetória pessoal, que despertou em mim curiosidade e vontade sincera de conhecer muito mais desse mundo que pude entrar em contato esse ano. Eu, que nunca fui fã de vinho, me propus um desafio, assim como se propôs o Matt lá na década de 70: deixar o preconceito de lado e ultrapassar as barreiras da superficialidade a respeito do tema.

Mas ó, prometo que não vou me tornar o babacão chato que só tem um assunto na vida.

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Sobre Paulo Henrique Moraes

sempre entre a palavra e a música.

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