E lá se foi 2013…

2013 foi o ano mais legal e o mais corrido dos meus últimos anos. O fato é que desde algum tempo a coisa só tem melhorado, ano após ano. Espero que 2014 seja uma continuidade disso. Vou fazer mais pra frente um textinho retrospectiva sobre tudo o que rolou, de bom (muita coisa), de ruim (nem tanto assim), sobre o que poderia ter rolado, o que vi, escutei, li, etc, no ano findo;  e sobre o que pretendo ‘rolar’ a partir de amanhã. Até lá, amigos. E feliz ano da baderna no Brasil!

IV

Antes do vinho (que ainda é apenas curiosidade), a comida (uma paixão, de fato) me pegou de jeito em 2013. Tanto que acho que o meu próximo “desafio” terá a ver com essas duas coisas. Tanto que tô pensando seriamente em fazer cursos de culinária (Sesc, Senac, sei lá o quê da vida) ou gastronomia (essas lojas de gente de nariz empinado da vida) aqui em São Luís. (Custa nada ver de qual é, rs). Tanto que pensei um tema a ser desenvolvido num projeto de mestrado que relaciona história e gastronomia, ou melhor, hábitos alimentares como símbolo de diferenciação social, valoração cultural e relações de poder, essas porras todas de historiador. Encontrei, inclusive, muitos trabalhos de doutorado, mestrado e artigos nesta linha de pesquisa neste site da UFPR. A coisa tá séria ó.

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Falando em mestrado, eu tô há uns dois anos enrolando nesse negócio. Tentei a sorte na primeira turma do mestrado em história da UFMA, tinha passado já em duas etapas, mas na hora da prova, para a qual estudei dois meses direto e tinha certeza que ficaria entre as 20 ou 15 vagas – não lembro -, cheguei atrasado e fodi tudo. Eu me senti absolutamente uma criança nesse dia. Porra, atrasar!!! Tamanho macho desse. Mas aí aproveitei o gancho e fiz uma especialização em História Cultural lá na UEMA – literatura e política, Bandeira Tribuzi, meu tema -, que durou 2 anos, de 2011 a 2012.

Desde então não tentei mais na UFMA; mas aí agora a UEMA abriu edital para a primeira turma deles. Pela experiência com os dois departamentos, prefiro mil vezes o da estadual. Mais organizado e o ensino é melhor. Tenho um projeto pronto, nada a ver com o que estudei na especialização, é sobre o Atlântico Negro, comércio direto de escravos entre Maranhão e reinos africanos, etc. Tá pronto, e eu sei que dá liga. Mas aí fiquei com essa dúvida cruel: me inscrevo com esse projeto ou espero mais um ano e desenvolvo melhor o lance lá da história dos hábitos alimentares no Maranhão? Que seria bem massa, pois, pelo que eu saiba, não tem ninguém pesquisando nada parecido aqui. Isso é bom (ineditismo do estudo) e ruim (pesquisa maior pois sem muitas referências) ao mesmo tempo. Tenho que decidir rápido (as inscrições terminam no final de janeiro), mas também tenho que me demorar um tanto mais sobre esta dúvida.

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Falando em África e escravidão, tô lendo o livro de um negro que nasceu livre nos Estados Unidos dos oitocentos, mas que por causa de uma reviravolta criminosa foi raptado e vendido como escravo no sul do país (pelo que tenho estudado, uma prática comum na América no começo do século XIX), e lá permaneceu por 12 anos até reencontrar a liberdade e sua família. A história, real, é bem maior e com muito mais tramas do que esse breve resumo. O livro, Twelve Years a Slave, foi escrito, editado e publicado em 1853 e virou best seller, tendo uma segunda edição em 1869; é baseado no relato de Solomon Nothup sobre esses doze terríveis anos de sua história, e ganhou vida nas mãos de David Wilson, um escritor local. Virou filme agora em 2013, cotado até para as principais categorias do Oscar. Ainda não o vi, mas quero muito.

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Falando em leitura, vale muito ler este artigo do Jonathan Franzen, publicado na Piauí n°86, que versa sobre todas as nossas superficialidades neste mundo comandado pela “máquina infernal” chamada internet; analisa a maneira falha com que nos comunicamos nos dias atuais, desde lá de cima, com o desmantelamento quase total da grande mídia, até o mundinho raso e mesquinho das redes sociais; e ainda reflete sobre a atuação do escritor nesse fuzuê todo através de um paralelo entre sua vida e atividade literária com a do seu guru austríaco, Karl Kraus, crítico feroz e venerado que exerceu grande influência na intelectualidade europeia na virada do século XIX para o XX. Um trecho:

 “Mas qual o destino de quem se torna escritor justamente porque a fofoca, a tuitagem e a cascata lhe parecem formas intoleravelmente superficiais de troca social? O que acontecerá com as pessoas que quiserem comunicar-se em profundidade, de indivíduo a indivíduo, no silêncio e na permanência da palavra escrita, e que foram formadas pelo amor aos autores que escreviam quando o mundo editorial ainda supunha algum tipo de controle de qualidade e as reputações literárias não dependiam apenas da decibelagem autopromocional?”
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E, por fim, uma dica de coração: leia o André Lisboa, amigo, pai de família, jornalista competente (dos melhores de São Luís), futuro filósofo do espírito e escritor/poeta em fase de desabrochamento. Aqui ó: readthetext.net

Metendo o nariz onde fui chamado

Antes do texto em si, uma explicação:

Durante todo o ano de 2013, eu fiz alguns frilas como redator para uma agência do Rio, e grande parte dos textos que eu produzi foi destinado a um cliente que comercializa vinhos de padrão elevado. Na maioria das vezes, o que me foi pedido era bastante simples, nada que exigisse conhecimento prévio e específico do assunto – quem me conhece sabe que eu não entendo necas de vinho. Alguns dos textos eu gostei bastante de escrever, pois tinham um tom mais histórico, as pesquisas para a feitura destes poucos me foram prazerosas, até.

O fato é que, desde janeiro, até agora há pouco, quando escrevi o último texto do ano para o cliente, eu me vi cercado de termos como “taninos macios”, “cor rubi intensa”, “aroma com notas de especiarias”, “sabor frutado”, “bebida dos deuses”, “terroir”, etc etc etc. De taças à entrevistas com produtores e enólogos internacionais, eu realmente entrei de cabeça neste (pra mim) novo universo. Pelo feedback da agência, eu mandei bem (sei que não tive que reescrever muita coisa, ainda bem).

Isto explicado, vamos ao que interessa:

No último mês, um amigo, depois de uma conversa anterior e fortuita a respeito do tema, me emprestou (ou deu, ainda não decidi, rs) um dos livros do Matt Kramer – um dos três grandes críticos de vinhos nos Estado Unidos -, e, sem saber, despertou uma curiosidade boa no marmanjo aqui.

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A versão brasileira da segunda edição de Os Sentidos do Vinho, lançada pela Conrad em 2007, é um belo de um ensaio sobre absolutamente tudo o que envolve o vinho. Adegas, criação, etapas de produção, comercialização, harmonização, conceitos como connoiseur, a relação da qualidade do vinho com diversas variáveis, como umidade, temperatura, transporte, tudo o que você possa imaginar sobre o assunto, o Kramer tratou direta ou indiretamente nesse livro, e sabe o que é melhor: sem nenhum pedantismo.

O cara consegue unir fatos históricos e científicos com conhecimentos de iniciados, sempre com irnonia, inteligência e linguagem clara, sem rodeios, a respeito do significado da bebida, desde sua criação. As tiradas espirituosas (“Cheirar a rolha não nos ensina nada [sobre a qualidade de um vinho], assim como tampouco podemos depreender algo sobre a qualidade de um sapato cheirando uma meia”) como representação de uma vontade, às vezes bem explícita, de desmitificação desse mundo que, para quem vê de fora, é bastante esnobe e antipático, tornam o livro ainda mais interessante. E como bônus, ele é bem escrito demais.

O crítico americano, como ele explica logo no começo do livro, entrou nessa de vinhos por acaso, sem nenhuma pretensão. Ele escrevia numa coluna de gastronomia num jornal do seu estado, e, devido a um direcionamento comercial estratégico visando os empreendimentos vinícolas da região, assumiu, por proximidade de assunto (comida, bebida), o departamento que cuidaria da ‘divulgação’ das bebidas nas páginas do diário, ou seja, só passou a escrever sobre vinhos por causa das obrigações do trabalho. Mas, uma vez dentro, ele se dedicou, leu tudo, gastou muito para conhecer de fato os vinhos, aprendeu a diferenciá-los pela qualidade, e, pam!, tornou-se um dos maiores na sua área, justamente quando houve um bum da produção e consumo de vinhos de alto padrão em países antes com pouca tradição na vitivinicultura, fins dos 80’s e 90’s todo.

Além de ter gostado muito do livro do Kramer, o que eu mais gostei foi saber sobre sua trajetória pessoal, que despertou em mim curiosidade e vontade sincera de conhecer muito mais desse mundo que pude entrar em contato esse ano. Eu, que nunca fui fã de vinho, me propus um desafio, assim como se propôs o Matt lá na década de 70: deixar o preconceito de lado e ultrapassar as barreiras da superficialidade a respeito do tema.

Mas ó, prometo que não vou me tornar o babacão chato que só tem um assunto na vida.