2012

Vamos lá, é tempo de rememorar as coisas (mais importantes) que me aconteceram, ou coisas que aconteceram independentes de mim, mas que me marcaram de alguma maneira, no ano que já foi.

Pessoalmente, 2012 foi um ano de passos largos dados: carro, casa e quase todas as responsabilidades da vida adulta que interessam (DIÑERO). Definitivamente, adulto! Ao mesmo tempo, e muito até por decorrência dessas responsabilidades todas, fui alguém mais centrado, menos festa, menos amigos ocasionais, menos situações aventureiras/desnecessárias pra me sentir, digamos, vivo. A dinâmica tornou-se outra, mais interior, mais do que já era até, pra quem me conhece isso é bem difícil de imaginar, mas foi assim, juro. Perspectiva. Além do: cada coisa tem (teve) seu tempo. E noção de que abdicar de uma ou outra situação, de um ou outro amigo (os que importam ainda estão por aqui), de uma ou outra alegria/decepção não vai matar ninguém (eu).

Isso foi o mais importante, e daí tudo decorreu.

Cartaz bonitão que fizeram da minha banda pro show da Feira da Música de Fortazleza

Cartaz bonitão que fizeram da minha banda pro show da Feira da Música de Fortaleza

Quanto às bandas, ainda estão por aqui. Novamente me foram motivos de felicidades e tristezas, de empolgação e desânimo – e não é assim com quase tudo o que vivemos?! Conheci mais dois estados brasileiros tocando. No Piauí foi legal porém foi meio embuchado, sabe, da nossa parte, digo. No Ceará foi melhor,  uma experiência fundamental, principalmente pra quem (eu) sabe que esse negócio de ter banda, apesar do comprometimento, é algo menor se comparado ao resto da vida. Eu gosto de tocar, gravar, compor (especialmente), conhecer gente diferente de lugares diversos, sons legais, e a maioria das coisas que vem agregada ao lance do ‘ter banda’, até mesmo as coisas ruins, enfim, eu gosto, mas gosto muito mais de outras coisas que não estão relacionadas em nada com esse mundo. Por isso, só fui ativo com minhas bandas no primeiro semestre: terminei de gravar com uma, comecei a gravar com outra, e fiz uma ótima apresentação com a terceira. Foi bem massa! No segundo semestre, apesar de Fortaleza, dei uma acalmada, porque foi preciso, financeiramente e psicologicamente – administrar bandas (em ambos os aspectos), novamente, está longe de ser prioridade na minha vida, e quando para de ser divertido, aí mesmo que se deve repensar o negócio todo. É bom saber, pelo menos, que, como quase sempre, foi tudo conquista minha, às vezes, até somente minha – não terei crise de arrependimentos daqui a alguns anos, é meio que um alívio perceber isso. Em 2013 estarei de volta, pra pelo menos fazer um disco que me orgulhe de ter feito.

Uma novidade boa é que entrei pra turma esperta de redatores do Rock’n’Beats, site sobre música indie/independente nacional e internacional que eu já acompanhava com frequência desde 2010. É legal estar do outro lado, é mais confortável, não tenho como dizer o contrário. Enfim, sempre gostei de escrever, sobre música ainda mais, é um exercício ótimo estar lá, menos de seis meses e já aprendi muito, além de me ter aproximado ainda mais da música brasileira feita hoje em dia (sou um dos responsáveis pela editoria nacional do site).

No fim do ano passado até começo de 2012 tive outra experiência de aprendizado com esse negócio da escrita/trabalho, fui criador e responsável por uma coluna sobre música no ‘caderno jovem’ do maior jornal impresso daqui do mará. O lance do prazo e de ter que escrever sobre um assunto determinado com tamanho e espaço de texto determinado me fez muito bem. Aprendi muito, apesar de ter durado pouco – alguns meses depois de eu ter entrado, o editor que havia me convidado pra escrever no caderno, o querido Anderson Corrêa, mudou de função no impresso e a nova editora teve que montar seu time novo.

Sei lá, estive pensando, se acontecer de eu continuar fazendo trabalhos com minha escrita não vou me opor, pelo contrário, muito me agrada a ideia. Não tenho formação acadêmica na aérea de comunicação, mas estudo sobre não me falta.

Aliás, falando nisso, terminei a especialização em História Cultural lá na estadual, mais um título acadêmico pro currículo, e mais uma realização pessoal. Foi apertado, mas consegui. Eu até pensei em desistir uma ou outra hora, por causa do tema que eu estava estudando até, que já me tinha saturado a mente, porém no final o negócio do prazo, do aperto, da cobrança pessoal e da escrita me fez engrenar – outro dia disponibilizo as minhas monografias (pós e graduação por aqui). Agora é mestrado, cujo tema me foi apresentado em forma de cadeira no curso de especialização, vou mudar de área, quero me sentir menos analista de cultura e mais historiador, eu ainda explico isso em outro post.

Pronto, as conquistas foram essas, e, parando pra pensar e escrever sobre, bem, 2012, foi um ano de muitas conquistas pessoais. Ainda bem!

Falemos do resto, agora.

Primeiro, vi o Nada Surf em Belém numa viagem necessária no começo do ano com a minha garota e uma amiga. Belo show, aliás. Já tinha ido a Belém em 2011, fui tocar e, por isso, não tive oportunidade de conhecer a cidade. Gostei, apesar do tacacá que não me desceu bem. Reencontrei os amigos que fiz na primeira viagem até lá. Foi massa!


Continuando no quesito música, fizemos (uns amigos e eu) o Grito Rock São Luís e recebemos a galera da Trinco do Piauí, uma bandaça que fez um show memorável aqui na cidade e se tornaram amigos pra vida toda. Nesse mesmo festival, tivemos o primeiro show da Souvenir, outra bandaça, só que daqui da ilha, de uns amigos queridos, tudo gente boa. Ainda fizemos o show da Camarones Orquestra Guitarrística, que foi simplesmente sensacional, um dos melhores shows que vi em São Luís esse ano, só ficou atrás da apresentação da Tulipa Ruiz, que matou a pau lá no Arthur Azevedo.

Na minha vitrola virtual, duas bandas se sobressaíram: Band of Horses, que só conheci pelo show deles no Lollapalooza, e que, mesmo pela tv, foi acachapante – eles lançaram um disco esse ano, bem 70, bem pop, melodias boas e fáceis, mas com bem menos força se comparado aos dois primeiros da banda, que são duas obras primas; sim, foi a banda que mais escutei no ano – e a outra foi Grizzly Bear, que já tinha chegado no topo com o álbum anterior e continuou lá com Shields lançado esse ano, o meu preferido de 2012, discão!

Ainda na música, gostei do Abraçaço do Caê; do disco raríssimo do Siba; da obra prima do Jair Naves, cujo primeiro single, Pronto para morrer (o poder de uma mentira dita mil vezes), hipnotiza e ao mesmo tempo desestabiliza qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade, tamanha a violência da canção; do metal blues setentão do Graveyard, que continua na sua sina de lançar ótimos álbuns; da estreia do Metz que trouxe aquele som cruzão, gritado, distorcido e alto até dizer chega, do tipo Nirvana pré-Nevermind, pras cabeças novamente; e dos guris da Cloud Nothings, que além de um ótimo disco, com um conceito definido e bastante coerente, fizeram a melhor música do ano pra mim: Wasted Days.

A nota triste fica por conta da morte de uns caras que admirava demais, na escrita e na música. O Ivan Lessa e o Adam Yauch, principalmente.

Alguns outros destaques pra mim foram: Breaking Bad (que série bem escrita/feita/dirigida/produzida/atuada!) – assisti tudo de uma vez, ansioso pelos capítulos finais. A quinta, e melhor, temporada de Mad Men, que só se supera a cada ano (a melhor peça dramática que tenho notícia desde há muito, incluindo aí livros, cinema, tv, etc). Girls e Newsroom também bateram bonito por aqui. Não vi muitos filmes, então… fu!

No esporte a coisa foi feia, prefiro nem comentar. Os times que torço ou tenho simpatia, todos, sem exceção, se deram mal ou muito mal. Neste quesito, 2012 só serviu pra eu confirmar minha paixão pelos esportes americanos, NFL e NBA, especialmente, que só tende a crescer desde 2010.

Ah, quase ia esquecendo: MEU PRIMEIRO AFILHADO NASCEU. Lionel, filho do meu irmão escolhido, Bruno Luís, e sua senhora Patrícia.

Foi isso, apesar de não ter sido só isso. Ano que vem tem mais!

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Resenha: Mick Jagger por Phillip Norman

(Resenha originalmente publicada no Rock’n’Beats no dia 21.12.2012)

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(Tradução de Álvaro Hattnher e Claudio Carina, Companhia das Letras, 624 páginas, 49,50 reais)

Em 2012, a maior banda de rock que já existiu completou cinquenta anos. Foi em 1962 que tudo começou, quando alguns garotos ingleses de classe média amantes do blues americano reuniram-se sob o nome de Rolling Stones, pretendendo não muito além de homenagear seus ídolos, soar como eles, e, dessa forma, ser a melhor banda de Rhythm & Blues do Reino Unido.

O que aconteceu desde então já faz parte da larga e importante história da cultura pop no século XX. Os responsáveis pelo desenrolar dessa história são ícones da música no mundo todo; o principal deles, o hoje Sir Michael Philip Jagger, é o representante maior da figura do rock star com os quais nos acostumamos desde quando Elvis Presley apareceu com sua música enérgica e seu requebrado desafiador.

E é do Michael – de bom desempenho escolar (chegando a estudar na prestigiada London School of Economics) e praticante de esportes (fundou um clube de basquete na escola e um grande fã de críquete) – que se transformou no Mick – o admirador de blues que definiu o que é ser frontman de uma banda de rock’n’roll – que o jornalista Phillip Norman se ocupou nas 624 páginas de sua mais nova investida literária, a biografia não autorizada Mick Jagger, lançada há pouco tempo no Brasil pela Companhia das Letras.

Da avalanche de sexo e drogas que marcaram a carreira dos Rolling Stones nos anos 60 e 70, ao sagaz homem de negócios que o gerenciamento de uma marca gigantesca que sua banda se tornou exige, sem deixar de lado o homem de família, pai de sete rebentos, Mick Jagger pelas 250.000 palavras (aproximadamente) de Phillip Norman foi mostrado como um personagem grandioso em diversos aspectos de sua vida.

Em um dos mais controvertidos desses aspectos, a do inveterado amante (e amado) das mulheres, Jagger é descrito por Norman como por vezes contraditório, por vezes vulgar, por vezes doce – as principais relações amorosas de Mick, Marianne Faithfull, Bianca Jagger e Jerry Hall, foram marcadas por momentos de extrema canalhice e outros de apaixonante gentileza.

De outro modo, a despeito da vida desregrada e caótica de sua banda, com o abuso excessivo de drogas, que inclusive levou à morte o seu primeiro guitarrista solo, Brian Jones, pouco tempo depois de ser dolorosamente demitido por Jagger e seus companheiros, Mick sempre se mostrou o homem certo para gerenciar a carreira da ‘monstruosidade’ financeira e artística que foi, é e continuará sendo os Rolling Stones.

Apesar dos inúmeros envolvimentos com autoridades policiais em diversas partes do mundo (desde porte de drogas com o episódio de 1967, detalhadamente contado por Norman no livro, ou no episódio da morte de um fã no conturbado show de Altamont em 1969), das perdas de integrantes, das disputas financeiras com gravadoras e empresários, das separações amorosas, litigiosas ou não, Mick Jagger sempre permaneceu focado no seu trabalho e no direcionamento da sua banda, seja no processo de composição e sucesso de um single/álbum (e foram tantos…), seja nas importantes decisões financeiras que a envolviam (o planejamento de turnês, lançamentos, etc.).

Phillip Norman é renomado na sua carreira como biógrafo, já contou a história de artistas como Beatles, Elthon John e Buddy Holly, além dos próprios Stones em diversas oportunidades (são quatro livros sobre o quinteto inglês até hoje lançados pelo jornalista). Por isso, o experiente escritor tem um vasto conhecimento a respeito das primeiras décadas do rock’n’roll, dos seus principais personagens e do que representa historicamente aquela época.

Em Mick Jagger (o livro), seu senso aguçado de repórter e sua insistente curiosidade revelam-se a cada detalhe cuidadosamente esmiuçado das principais histórias que envolvem Mick e sua lendária banda. Phillip Norman também se mostra um excelente escritor ao lançar mão de artífices literários para montar, quando não possível com fatos, a narrativa biográfica de Jagger. Neste aspecto, as passagens mais notáveis são quando o jornalista nos conta sobre a origem das principais músicas compostas pela dupla Jagger/Richards, e a relação de cada uma com a trajetória conturbada da banda e a vida pessoal de seu líder.

Por fim, é preciso dizer que todas as histórias e lendas em torno de Mick Jagger e dos Rolling Stones estão presentes no livro produzido por Phillip Norman, e, para qualquer fã que queira saber os pormenores da vida de ambos, cujas histórias tornaram-se una no já longínquo ano de 1962, este será colosso de mais de 600 páginas será um prato cheio. Mas o mérito maior do livro de Norman está em tratar o biografado como um personagem diverso, interessante e complexo, trazendo à tona histórias do seu passado mais remoto (como sua vida pré-Stones), esclarecimentos sobre decisões importantes que marcaram a trajetória da banda, até fuxicos sobre acontecimentos recentes da vida do líder do hoje quarteto inglês, ou seja, quase tudo o que Mick Jagger insistentemente nos priva com uma sempre oportuna falta de memória a respeito da sua trajetória artística e vida pessoal.